a primeira semana dos trinta
achei que aos trinta eu estaria super bem sucedida profissionalmente, morando sozinha, andando nas motos velozes de amigos ou namorados, ganhando muito dinheiro, com uma casa, varanda e labrador, pianista e flautista, quase doutora na universidade, que enfim essa mania de andar largada e de ter preguiça teria passado, que eu não gostaria mais de comer bobagem, que eu saberia como me portar, o que dizer, que teria muita experiência de vida, que poderia contar histórias e dizer, como o meu pai, 'naquele tempo' ou 'fiz muito isso na juventude' como diz a minha mãe pra falar do passado , que eu iria em mais shows, viajaria o mundo de mochilão, frequentaria semanalmente bares com músicas ao vivo, aprenderia a tomar vinho elegantemente, que minha letra seria mais bonita, que eu tivesse uma rúbrica daquelas que a gente não entende nada, que eu já fosse cult pra ver filmes e estivesse a par do óscar com antecedência, que teria zerado a lista de livros pendentes na minha casa - e não aumentado substancialmente a quantidade de não lidos -, que eu passaria hidratante nos cotovelos depois do banho, que as impressoras dessem menos problema, que eu falaria inglês e espanhol fluentemente lendo tudo o que pudesse no original, que eu já tivesse aprendido a ser menos introvertida, a gostar de festas, a gostar de pessoas estranhas, que eu jantasse sopas com gosto, que eu já tivesse aprendido a usar salto ou a me maquiar, que eu tivesse um jeep e fizesse trilhas pela América Latina loucamente, que eu tivesse certeza da existência ou da não existência de deus, que eu não quisesse mais a minha mãe quando tivesse medo de precisar ir ao médico, que soubesse controlar tudo o que falo, que eu soubesse o que quero da vida.
mas queridxs, não é assim.
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